PIB per capita do Brasil fica abaixo da média mundial após décadas de crescimento insuficiente
Dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) mostram que o país cresceu 428% desde 1980, enquanto o mundo avançou 675% no mesmo período
Entre 1980 e 2025, o PIB per capita mundial saltou de US$ 3.380 para US$ 26.188, uma expansão de 675%, segundo o Fundo Monetário Internacional. No mesmo intervalo, o Brasil passou de US$ 4.427 para US$ 23.380, crescimento de 428%, calculado em Paridade do Poder de Compra (PPP).
A comparação revela que, nas últimas quatro décadas e meia, o poder de compra médio da população brasileira avançou em ritmo menor do que o registrado tanto em economias avançadas quanto em mercados emergentes. O PIB per capita global superou o brasileiro a partir de 2015, quando o país enfrentou dois anos consecutivos de recessão, com contrações superiores a 3% ao ano.
“Esse cenário tem a ver com os nossos solavancos, com essa instabilidade econômica que se traduz em períodos de crescimento mais rápido e, depois, períodos de desaceleração e até de recessão”, afirma Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria. “Não há uma sustentação do crescimento de maneira contínua.”
A ruptura de 1981 e o custo acumulado
Um estudo do economista Sergio Vale, da MB Associados, com base na Penn World Table, identificou uma quebra no ritmo de crescimento do Brasil a partir de 1981. O trabalho compara a trajetória brasileira com a de países que tinham desempenho similar até os anos 1980 — Coreia do Sul, Romênia e Botswana. Em 2023, o PIB per capita do Brasil foi de US$ 18.492, valor 42% inferior ao que seria registrado caso o país tivesse acompanhado o ritmo dessas economias.
Congresso nacional (Vídeo: reprodução/Getty Images Embed/Archive Photos)
A renda média seria cerca de US$ 13.400 mais alta, atingindo US$ 31.900.” Não seria uma renda alta, mas seria uma renda que colocaria o país no limite entre sair da armadilha da renda média e ter uma condição de poder ser considerado um país de renda mais elevada”, afirma Vale. O economista aponta que a diferença entre o PIB per capita realizado e o potencial cresceu ao longo dos anos: era de 7,3% em 1981 e subiu para 19,2% já em 1985.
Produtividade estagnada como fator estrutural
Especialistas apontam que a baixa produtividade é um dos principais elementos por trás do atraso econômico do Brasil. O modelo de substituição de importações e a migração de trabalhadores do campo para a indústria, que impulsionaram o crescimento entre 1950 e 1980, se esgotaram no início da década seguinte. A partir dali, o desafio passou a ser aumentar a produtividade dentro de cada setor, especialmente nos serviços, que hoje respondem por cerca de 70% do PIB e do emprego. Dados setoriais indicam, no entanto, que a produtividade da indústria e dos serviços não cresce desde 1995.
“O Brasil perdeu o período áureo da globalização. O país fez a abertura comercial na primeira metade dos anos 1990 e ficou mais ou menos em linha com outras economias emergentes. Mas depois não fez mais nada”, afirma Fernando Veloso, diretor de Pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social. Ele acrescenta que o país corre o risco de perder também a janela de oportunidade aberta pela inteligência artificial, após já ter ficado para trás em integração às cadeias globais de produção.
