Divergências ameaçam cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã
Trégua anunciada nesta semana corre risco por novos ataques a países do Golfo e no Líbano; Estreito de Ormuz tem ameaça de nova paralisação
O acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã segue com incertezas, visto a movimentação de ambas as partes sobre ataques a países aliados mesmo após divulgação da decisão. Anunciada na última terça-feira (7), a trégua previa a abertura do Estreito de Ormuz em decorrência da paralisação dos ataques de EUA e Israel, algo que não foi cumprido já nas horas seguintes. Conversas para acordo de paz definitivo começarão na próxima sexta-feira (10).
Ataques repentinos
Mesmo com a divulgação oficial de um cessar-fogo de duas semanas, Estados Unidos e Irã seguem sem chegar a um denominador comum, se estranhando nem mesmo após 24 horas. De acordo com registros, ambas as partes fizeram ataques nesta quarta-feira (8). O Irã afirma ter sofrido danos em ilhas próximas, além de denunciar os ataques de Israel ao Líbano, enquanto países do Golfo afirmaram terem sofrido ataques de mísseis e drones iranianos.
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Bombardeio de Israel à capital do Líbano (Vídeo: reprodução/ Instagram/ @portalg1)
A falta de compromisso principalmente do lado americano acabou mexendo com a decisão do Irã sobre o Estreito de Ormuz, rota marítima que passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo, que ficou fechado durante o conflito. A passagem foi fechada por algumas horas, com Saeed Kahtibzadeh, vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, alegando que só reabriria o Estreito após os Estados Unidos realmente parasse com os ataques.
De acordo com as negociações, o Líbano, que sofreu um ataque com quase 200 mortes, estaria dentre os países do cessar-fogo, sendo assim Israel não poderia ter atacado a região durante a pausa.
Principais pontos de divergência
Ao menos três tópicos foram colocados em questão por Estados Unidos e Irã, que ainda buscam uma decisão unânime para o cessar-fogo, e posteriormente, um final oficial para os conflitos. A primeira divergência é referente ao plano de dez pontos essenciais apresentados pelo Irã para o fim da guerra, que, inicialmente, foi tratado como viável por Donald Trump, porém, descartado pela Casa Branca, que considerou a proposta “inaceitável” e espera um novo projeto para negociar com o Teerã.
Outro ponto importante é em relação à movimentação nuclear. Por um lado, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã alegou que Washington concordou com o termo. Já Trump negou e pretende “escavar” todo o urânio. Em post, o presidente disse: “Não haverá enriquecimento de urânio, e os Estados Unidos, em cooperação com o Irã, irão escavar e remover todo o “material nuclear” profundamente enterrado (bombardeiros B-2). Isso agora, e desde o ataque, está sob vigilância por satélite extremamente rigorosa”.
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Foto: reprodução/ Getty Images Embed/ Kevin Dietsch)
Dentro desse assunto, de acordo com a Associated Press, a frase “aceitação do enriquecimento” estava presente no acordo em língua persa, porém não constava na versão em inglês, afetando uma das principais discordâncias dos países, por conta do medo do ocidente sobre o regime construir uma arma nuclear no futuro.
Esse tipo de processo é altamente perigoso e é analisado de perto pela Agência Internacional de Energia Atômica. Em meios técnicos, o urânio tem uma variante chamada U-235, que é usada para produção de armas, porém, é altamente escassa, tendo apenas 0,72% dentre todo o material encontrado na natureza. A principal preocupação é sobre o uso do processo de enriquecimento, que aumenta a concentração do U-235, podendo chegar a 90% da composição e ser usado para o mal.
CASO DO LÍBANO
Por fim, a inclusão do Líbano se tornou um tópico importante após o grande ataque de Israel. Segundo o Paquistão, país mediador do conflito, o Irã colocou o Líbano na trégua, proibindo esses ataques durante a pausa da guerra. Em comunicado feito por Shehbaz Sharif, primeiro ministro do Paquistão, o Líbano é citado entre os lugares de cessar-fogo imediato, porém, Israel e Estados Unidos alegam que o combate ao Hezbollah no país não faz parte do acordo.
Ambas as lideranças dos países, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, de Israel e Donald Trump comunicaram que estão de acordo com o cessar-fogo por conta do Estreito de Ormuz, mas que o Líbano não está incluído. Por conta disso, na última quarta-feira (8), ocorreu o maior ataque ao território, com bombardeios em Beirute e no sul do país, deixando mais de 900 feridos.
A região de travessia naval foi reaberta e espera-se um maior fluxo de combustível para todo o mundo, melhorando a crise dos preços causada pelo fechamento do estreito. Apesar do cessar-fogo de duas semanas, esta é apenas uma pausa dos ataques e durante esse período, irão começar as tratativas de um acordo oficial de paz, que daria um fim ao conflito que dura mais de um mês. As negociações serão feitas em Islamabad, Paquistão, começando na sexta-feira, 10 de abril.
