Protestos da Geração Z no Marrocos deixam mortos e feridos em confrontos contra gastos da Copa

Os protestos da Geração Z no Marrocos, organizados via redes sociais, atingiram Rabat, Casablanca e Lqliaa, deixando três mortos; jovens reivindicam saúde, educação e emprego

02 out, 2025
Manifestação no Marrocos | Reprodução/Getty Images Embed/ Abdel Majid Bziouat
Manifestação no Marrocos | Reprodução/Getty Images Embed/ Abdel Majid Bziouat

Os protestos que começaram no último sábado, no final de setembro, ganharam intensidade ao longo dos dias e tiveram seu ponto mais violento na noite de quarta-feira (1º), quando ocorreram as primeiras mortes confirmadas. 

Em Lqliaa, a cerca de 470 km de Rabat, duas pessoas morreram e outras ficaram feridas após policiais abrirem fogo contra manifestantes que, segundo autoridades locais, tentavam roubar armamentos. Já na região metropolitana da capital, grupos incendiaram carros e edifícios e depredaram lojas. 

Nesta quinta-feira (2), o primeiro-ministro Aziz Akhannouch informou que o número de mortos subiu para três, sem detalhar onde ocorreu o novo óbito. O Ministério do Interior divulgou ainda que os protestos já deixaram 354 feridos — sendo 28 civis e 326 membros das forças de segurança — e pelo menos 409 manifestantes presos. O movimento, batizado de GenZ 212, em referência ao código telefônico do país, cresceu rapidamente nas últimas semanas e já alcançou cidades como Rabat, Casablanca, Agadir e Oujda. 

Estopim: mortes em hospital público e falta de infraestrutura

O Marrocos vive uma onda de protestos de grandes proporções, marcada pela mobilização espontânea e descentralizada de jovens da chamada “Geração Z”, que utilizam plataformas digitais como TikTok, Instagram e Discord para convocar manifestações e compartilhar denúncias de descaso social. 

O estopim da revolta, segundo organizações locais, foi a morte de oito mulheres grávidas em um hospital público de Agadir, evento que expôs a precariedade dos serviços de saúde e a carência estrutural de profissionais, medicamentos e equipamentos; para os manifestantes, esse episódio simbolizou a negligência do Estado em áreas essenciais, contrastando diretamente com os altos investimentos direcionados para obras relacionadas à Copa do Mundo de 2030, da qual o Marrocos será um dos países-sede.


Matéria sobre os protestos da Gen Z (Foto: reprodução/X/@BandJornalismo)

Confrontos violentos e vítimas em Lqliaa

A situação ganhou contornos ainda mais dramáticos quando, na cidade de Lqliaa, próxima a Agadir, manifestantes tentaram invadir uma guarnição da gendarmaria, resultando em um confronto violento que envolveu incêndios, ataques ao prédio e tentativas de roubo de armamentos. 

A resposta das forças de segurança foi imediata, com uso de gás lacrimogêneo, dispersões forçadas e disparos de armas de fogo, que culminaram em pelo menos duas mortes confirmadas e dezenas de feridos, evidenciando a gravidade do cenário e a escalada da repressão estatal.

De acordo com balanços oficiais e de organizações civis, mais de 400 pessoas já foram detidas desde o início das manifestações, incluindo menores de idade, enquanto aproximadamente 300 indivíduos ficaram feridos em diferentes cidades, entre manifestantes e policiais

 Além disso, os protestos deixaram um rastro de destruição, com veículos incendiados, agências bancárias depredadas e prédios públicos e privados afetados, provocando forte repercussão nacional e internacional.

Governo nega relação com Copa e promete reformas

O governo marroquino, pressionado pela repercussão negativa, afirmou em comunicados oficiais que reconhece a gravidade das demandas sociais e manifestou intenção de abrir canais de diálogo com os manifestantes, prometendo investimentos em saúde e educação. 

Ao mesmo tempo, no entanto, negou que os bilhões destinados à construção e renovação de estádios para a Copa estejam comprometendo os serviços básicos da população, alegando que parte significativa dos problemas foi herdada de administrações anteriores e não pode ser resolvida de forma imediata.

Organizações internacionais e entidades de defesa dos direitos humanos criticaram duramente o que consideram uso excessivo da força pelas autoridades, pedindo apuração das mortes, revisão das prisões e garantias do direito de protestar de forma pacífica.

Especialistas alertam que a persistência dos jovens nas ruas, aliada ao uso das redes sociais como ferramenta de mobilização em tempo real, pode aumentar a instabilidade no país caso não haja respostas concretas, ao passo que reformas estruturais e políticas inclusivas poderiam representar um caminho para reduzir tensões e restaurar a confiança da população. 

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