Porta-voz dos EUA afirma que Trump pretende combater PCC e CV
Segundo Amanda Roberson, Trump “deixou muito claro desde o início do mandato que ele vai utilizar todas as ferramentas para combater grupos criminosos”
A porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Amanda Roberson, afirmou que o presidente dos EUA, Donald Trump, pretende desmantelar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), em entrevista à CNN Brasil nesta segunda-feira (1º).
“O presidente Trump deixou muito claro desde o início do seu mandato que ele vai utilizar todas as ferramentas a nossa disposição para combater esses grupos criminosos que estão atuando na nossa região e para proteger a segurança dos Estados Unidos”, disse a porta-voz. “O presidente Trump está atuando para eliminar estes grupos”, acrescentou ela.
O Departamento de Estado norte-americano informou na quinta-feira (28) ter designado o Comando Vermelho e o PCC como “Terroristas Globais Especialmente Designados”. A decisão passa a vigorar em 5 de junho. “O CV e o PCC figuram entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil. Em conjunto, reúnem milhares de integrantes e promoveram ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis brasileiros”, ressalta o comunicado assinado pelo secretário de Estado Marco Rubio.
O que é o PCC?
O Primeiro Comando da Capital surgiu em agosto de 1993, quando oito detentos transferidos para o presídio de Taubaté criaram a organização como reação ao massacre do Carandiru, ocorrido no ano anterior, no qual forças de segurança do estado mataram mais de 100 presos após uma rebelião. Originada com um programa de resistência à violência estatal e de reivindicação por melhores condições carcerárias, a facção expandiu-se dentro de um sistema prisional com pouco investimento e caráter permissivo. A existência do grupo foi reportada publicamente pela primeira vez pela jornalista Fátima Souza em 1997, apesar de o governo de São Paulo continuar a negar sua presença. Nos anos subsequentes, a transferência de lideranças para estabelecimentos prisionais distribuídos pelo país, medida concebida para enfraquecê‑la, produziu o efeito contrário: possibilitou que a facção consolidasse vínculos mais firmes com outras organizações criminosas e propagasse suas ideias em escala mais ampla.
Vídeo explicativo a respeito do PCC e CV (Vídeo: reprodução/Youtube/@bandjornalismo)
Nas décadas subsequentes, o PCC deixou de ser apenas uma organização do sistema prisional para se tornar uma rede criminosa com atuação transnacional. A facção estabeleceu conexões com a ‘Ndrangheta italiana e passou a realizar lavagem de dinheiro em destinos como a China, ao passo que ampliava o tráfico internacional de drogas e armas por praticamente toda a América do Sul. No plano interno, sua organização funciona menos segundo uma hierarquia rígida e mais por meio de um modelo de franquias, com lideranças regionais autônomas que recolhem contribuições destinadas a custear advogados, subornar agentes penitenciários e policiais, além de adquirir entorpecentes e armamento. Atualmente tida como a maior e mais estruturada facção criminosa do Brasil, a entidade evidencia que sua potência decorre tanto da capilaridade territorial quanto da aptidão para se adaptar institucionalmente, em muitos aspectos, pautando-se pela lógica de uma empresa.
E o CV, o que é?
O Comando Vermelho representa a mais antiga facção criminosa do Brasil. Sua origem remonta a uma união inesperada entre delinquentes comuns e ativistas de esquerda, formados dentro das prisões durante o período da ditadura militar que dominou o país entre 1964 e 1985. As condições desumanas do presídio Cândido Mendes, localizado na Ilha Grande no Rio de Janeiro, motivaram os prisioneiros a se organizarem em um coletivo. Inicialmente, eles criaram uma milícia de viés esquerdista chamada “Falange Vermelha”, mas com o tempo essa ideologia foi sendo deixada de lado, à medida que o grupo se aprofundava no crime organizado, e a mídia passou a referir-se a eles como Comando Vermelho. Ao chegar em 1979, a organização já havia ultrapassado os limites das prisões, ingressando nas ruas do Rio de Janeiro. Com a explosão do tráfico de cocaína na década de 1980, o grupo estava em uma posição privilegiada para estabelecer parcerias com cartéis colombianos, possuindo a estrutura necessária para adquirir e distribuir grandes volumes da substância. Dessa maneira, o CV começou a dominar favelas que eram negligenciadas pelo governo, criando sistemas alternativos de poder e oferecendo opções de emprego para comunidades historicamente marginalizadas no Brasil.
Vídeo explicando a história do CV (Vídeo: reprodução/Youtube/@BBCNewsBrasil)
Nas décadas seguintes, o CV se firmou como a principal potência criminosa no Rio de Janeiro, embora sua influência tenha enfrentado desafios contínuos. Em 2005, estimava-se que a facção controlava mais da metade das áreas da cidade mais afetadas pela violência, embora essa proporção tenha diminuído para menos de 40% em 2008, em parte devido a um programa de pacificação implementado pela polícia. A ruptura com o PCC em 2016 gerou um conflito que ameaçou seu domínio territorial, mas o CV reagiu: conseguiu relegar os Amigos dos Amigos a uma posição de gangue secundária e assumiu o controle significativo da infraestrutura do tráfico em Manaus, após derrotar a Família do Norte. Apesar de ainda ser inferior ao PCC, em 2020, estimava-se que a facção contava com aproximadamente 30 mil integrantes em todo o Brasil, com uma presença crescente nas regiões Norte e Nordeste do país.
