Polícia Federal aponta que Vorcaro mandou monitorar denunciante do Banco Master

PF vê atuação direta de grupo ligado a Vorcaro contra Vladimir Timerman, alvo de ação conduzida pelo escritório da esposa de Alexandre de Moraes

22 jul, 2026
Daniel Vorcaro e Vladimir Timerman | Reprodução/Márcio Gustavo Vasconcelos/Alex Silva/Flickr/Estadão
Daniel Vorcaro e Vladimir Timerman | Reprodução/Márcio Gustavo Vasconcelos/Alex Silva/Flickr/Estadão

Novos detalhes sobre o Caso Master vieram a público nesta quarta-feira (22) e ajudam a entender como teria funcionado o monitoramento de Vladimir Timerman, fundador da Esh Capital. Segundo um relatório da Polícia Federal, o empresário teria sido acompanhado por uma estrutura ligada a Daniel Vorcaro e comandada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.
Timerman havia denunciado supostas irregularidades envolvendo o Banco Master e operações relacionadas à Gafisa. Naquele período, também mantinha uma disputa judicial com Vorcaro. As mensagens analisadas pela PF indicam que, depois das denúncias, o fundador da Esh Capital passou a ser tratado como um adversário pelo ex-banqueiro.

Em dezembro de 2023, Vorcaro pediu que fosse tomada uma “medida urgente” contra Timerman. Sicário respondeu dizendo que o empresário já estava sendo monitorado 24 horas por dia. Na mesma conversa, afirmou que sua equipe reunia informações e que, se fosse necessário, poderia buscar acesso a e-mails, contas de WhatsApp e perfis em redes sociais.

A investigação também encontrou indícios de que Vorcaro recebeu documentos sigilosos e acompanhou o andamento de procedimentos policiais relacionados a Timerman. Na avaliação dos investigadores, essas informações poderiam ser usadas para pressioná-lo durante a disputa judicial.

O monitoramento teria continuado ao longo de 2024. Em uma das mensagens, Sicário afirmou ter “acesso total e ilimitado” a sistemas de consulta processual e disse que poderia obter novas informações. A origem desse suposto acesso ainda é investigada pela Polícia Federal.

“A Turma” e o monitoramento de adversários

Segundo a PF, Sicário atuava como coordenador operacional de “A Turma”, grupo que teria sido usado para obter documentos de forma ilegal, acompanhar pessoas e intimidar adversários de Vorcaro.

As conversas mostram que o tom em relação a Timerman ficou mais agressivo com o passar do tempo. Em junho de 2024, Vorcaro teria pedido “carga total” contra o empresário. Em outra mensagem, afirmou que Timerman não deixaria de fazer acusações enquanto não fosse preso.


Sede da Polícia Federal em Brasília (Foto: reprodução/Gustavo Minas/Bloomberg/Getty Images Embed)


Poucos dias depois, a Polícia Civil de São Paulo abriu uma investigação contra Timerman a partir de uma denúncia anônima enviada pelos Correios. O inquérito apurava suspeitas de furto qualificado, lavagem de dinheiro e fraude no mercado de capitais. Mais tarde, porém, o caso foi arquivado a pedido do Ministério Público por falta de provas.

De acordo com a investigação da PF, Timerman não teria sido o único alvo da estrutura. Outros trechos do material citam o monitoramento de ex-funcionários, jornalistas e pessoas consideradas contrárias aos interesses de Vorcaro.

Parte dos integrantes de “A Turma” e das funções atribuídas a cada um já teria sido identificada. A polícia, no entanto, ainda tenta dimensionar o alcance das ações do grupo e esclarecer até onde esse tipo de monitoramento teria chegado. Luiz Phillipi Mourão morreu em março de 2026, após atentar contra a própria vida enquanto estava sob custódia da Polícia Federal.

As denúncias feitas por Vladimir Timerman

A disputa entre Timerman, Vorcaro e o Banco Master começou antes da descoberta dessas mensagens. O fundador da Esh Capital denunciou à Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, supostas operações fraudulentas envolvendo fundos ligados ao empresário Nelson Tanure e ao Banco Master.

Depois disso, o banco e Vorcaro apresentaram uma queixa-crime por calúnia e difamação contra Timerman. A Justiça de São Paulo rejeitou a ação por falta de justa causa, e a decisão foi posteriormente mantida pelo Tribunal de Justiça do estado.

Nesse processo, o Banco Master e Vorcaro foram representados pelo escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados. Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, é sócia da banca.

O escritório também mantinha um contrato de prestação de serviços jurídicos com o Banco Master. O acordo previa pagamentos mensais de cerca de R$ 3,6 milhões durante três anos e poderia alcançar R$ 129 milhões caso fosse cumprido integralmente. Os repasses foram interrompidos após a liquidação da instituição financeira.

Dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado apontam que o Banco Master declarou pagamentos de R$ 80,2 milhões ao escritório entre 2024 e 2025. A banca, por sua vez, afirmou não confirmar esses valores e classificou as informações como incorretas e obtidas por meio de vazamento ilegal. Em manifestação anterior, o escritório declarou que prestou serviços jurídicos e de consultoria ao banco durante a vigência do contrato.

Até o momento, não há indicação de que Viviane Barci de Moraes ou Alexandre de Moraes tenham participado do monitoramento atribuído à estrutura ligada a Vorcaro.

PF investiga origem dos documentos

A Polícia Federal continua apurando como os documentos sigilosos foram obtidos e quem teria realizado ou autorizado consultas a sistemas restritos. Os investigadores também tentam estabelecer a responsabilidade de cada pessoa envolvida e entender a dimensão real do monitoramento.

As informações reunidas até agora indicam que ao menos parte das ações mencionadas nas mensagens pode ter sido colocada em prática. Ainda não está claro, porém, quantos acessos ocorreram, quais dados foram obtidos nem de que forma esse material teria sido utilizado. O caso permanece sob investigação.

Embora a PF tenha reunido indícios de monitoramento ilegal, obtenção de informações sigilosas e intimidação de adversários, a responsabilização criminal dos envolvidos ainda depende do avanço das apurações e, posteriormente, das decisões da Justiça.

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