STF pressiona: Moraes intima Castro a explicar megaoperação no RJ

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quarta-feira (29) que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), compareça a uma audiência para prestar esclarecimentos  sobre a recente megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha, que resultou em um número alarmante de mais de 100 mortes. A decisão atende a pedidos formais do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e da Procuradoria-Geral da República (PGR), no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas.

Magistrado exige prestação de contas detalhada do governador

Em sua determinação, o magistrado exige que o chefe do Executivo fluminense detalhe o cumprimento de todas as diretrizes judiciais estabelecidas anteriormente pela Corte em relação a essas operações. Entre os pontos cruciais que Castro deverá justificar estão a motivação central para a realização da incursão, o efetivo de agentes empregados, o balanço oficial de vítimas fatais e feridas, as medidas adotadas para assegurar a responsabilização em eventuais casos de abuso de autoridade, as providências de assistência às famílias afetadas, a comunicação formal ao Ministério Público e a utilização de equipamentos de gravação, como câmeras corporais.


Matéria sobre a cobrança de esclarecimento de Moraes ao governador do RJ por megaoperação (Vídeo: reprodução/YouTube/CNN Brasil)

Moraes definiu uma agenda intensa para a próxima segunda-feira (3), na capital carioca. A primeira sessão, marcada para as 11h, reunirá o governador Castro juntamente com os principais escalões da Segurança Pública do estado: os chefes da Secretaria de Segurança Pública, da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Superintendência-Geral de Polícia Técnico-Científica. O ministro foi enfático ao pontuar que o governador deverá apresentar as informações de maneira detalhada na audiência designada. Posteriormente, estão agendadas reuniões com o Presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), o Procurador-Geral de Justiça e o Defensor Público Geral.

PSB pede investigação federal

A intervenção do STF ocorre em um cenário de crescente pressão institucional. Ainda na quarta-feira, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), autor original da ADPF das Favelas, solicitou formalmente que Moraes determine a instauração de uma investigação federal para apurar o possível descumprimento de decisões do Supremo pelo Governo Estadual. O partido aponta indícios muito fortes de desrespeito às medidas judiciais, citando inclusive a alegação de perda de imagens de câmeras corporais por parte da autoridade policial. O PSB criticou ainda a tentativa de Castro de transferir a responsabilidade pela insegurança pública às determinações da ADPF n° 635.

A ADPF das Favelas, ajuizada em 2019, visa questionar a letalidade policial em operações nas comunidades do Rio e estabelecer um marco regulatório mais rigoroso. Em abril deste ano, o STF homologou parcialmente um plano apresentado pelo estado para retomar áreas sob domínio de facções criminosas, exigindo, entre outras coisas, maior transparência nos dados relativos a operações com óbitos.

A cadeira de relator do caso, anteriormente ocupada pelo ministro aposentado Luís Roberto Barroso, está sendo exercida temporariamente por Moraes. A expectativa agora se volta para a análise do pedido do PSB e, fundamentalmente, para os esclarecimentos que deverão ser prestados pelo Palácio Guanabara na próxima semana.

Morte de jovem em festa junina gera protesto e reação contra ação policial no RJ

Moradores da comunidade Santo Amaro, no Catete, zona sul do Rio, protestaram neste sábado (7) contra a morte de Herus Guimarães Mendes, de 22 anos. O jovem foi baleado durante uma festa junina, na noite de sexta (6), durante uma operação do Bope. Ele foi socorrido, mas morreu no hospital horas depois.

A ação policial feriu outras cinco pessoas e causou revolta na comunidade. O rapper Oruam participava do evento e se manifestou pelas redes sociais. Em um vídeo, criticou duramente a violência policial e exigiu providências: “A gente só quer justiça”, afirmou.

Além dele, o presidente da quadrilha Balão Dourado, Cristiano Pereira, também relatou o impacto da operação. Segundo ele, era a terceira vez que seu grupo se apresentava no Santo Amaro. “A Polícia Militar cometeu um erro gravíssimo. Estávamos dançando, havia crianças no local, e, de repente, os policiais surgiram de todos os becos. Um monte de gente atirando. O resultado foi esse: pessoas baleadas e mortas”, relatou.

PM fala em ação emergencial e confronto armado

A Polícia Militar informou que deflagrou a operação em caráter emergencial após receber um alerta sobre homens armados reunidos na comunidade, supostamente se preparando para enfrentar um grupo rival. Segundo a corporação, os agentes entraram na área, foram atacados e reagiram em um segundo momento da ação.

A PM também afirmou que os policiais usavam câmeras corporais, cujas imagens a Corregedoria já analisa. O Bope abriu um procedimento interno para apurar os fatos, e a 9ª Delegacia de Polícia registrou o caso.


Moradores da comunidade Santo Amaro, na zona sul do RJ, em protesto pela morte de jovem (Vídeo: reprodução/YouTube/CNN Brasil)

Cultura sob repressão

A morte de Herus realça o debate sobre a presença policial em comunidades e o uso da força em operações durante eventos culturais. A denúncia de perseguição feita por MC Poze do Rodo amplia a discussão sobre a forma como a polícia atua em territórios periféricos e sobre quem são os alvos preferenciais dessas ações. Além disso, o cantor Oruam lançou o álbum “Liberdade” onde busca dar visibilidade para denunciar abusos e cobrar justiça.

Os dois episódios colocam em evidência os limites da ação policial, o racismo estrutural e a criminalização da cultura da favela.