Dengue: evolução do agente transmissor revela adaptação a condições desfavoráveis 

Capacidade de se reproduzir em águas contaminadas e ocupação em lugares antes inóspitos são algumas das adaptações do mosquito

06 mar, 2024
Foto destaque: mosquito Aedes aegypti, agente transmissor da dengue (Reprodução/Freepik)
Foto destaque: mosquito Aedes aegypti, agente transmissor da dengue (Reprodução/Freepik)
Mosquito da dengue

Desde que se deu início aos surtos de dengue no país, especialistas buscam explicações sobre quais seriam os motivos para chegarmos nesta nova onda. Nesse contexto, uma das explicações é a capacidade de adaptação do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, a ambientes, até então, considerados inóspitos.  

Há tempos o Aedes vem se adequando ao ambiente urbano. Aos poucos, o mosquito foi se acostumando e se adaptando até a regiões que antes não tinha condições favoráveis à presença da espécie” 

Sérgio Luz, pesquisador da Fiocruz Amazônia, para o G1

Dessa forma, para os especialistas, o aumento do número de casos da doença no Brasil está relacionado às mudanças de comportamento por parte do mosquito transmissor. Para a professor de epistemologia da Faculdade de Saúde Pública da USP, Maria Anice Mureb Sallum, o Aedes aegypti possui capacidade de adaptação juntamente a atuação do ser humano. “O mosquito evoluiu junto com o homem urbano. Ele foi se adaptando aos ambientes criados pelo homem de maneira muito efetiva”, afirma, também para o G1.


Dengue: evolução do agente transmissor revela adaptação a condições desfavoráveis 
Agente descarta focos do mosquito Aedes aegypti no Distrito Federal. (Foto: reprodução/Gabriel Jabur/Agência Brasília)

Adaptações do mosquito

Especialistas pontuam principalmente três adaptações do Aedes aegypti que poderiam explicar o aumento do número de casos de dengue no país, são elas: a ampliação do período de circulação do mosquito, a ocupação de ambientes com clima que anteriormente eram considerados inóspitos à espécie e a capacidade de se reproduzir em água contaminada .

Sobre a ampliação do período de circulação do mosquito, anteriormente, havia uma preferência do agente transmissor pelo calor e pela luminosidade, por isso era muito comum ouvir que o mosquito só circulava durante o dia. No entanto, seu processo evolutivo permitiu que a transmissão também ocorresse à noite. Além disso, de acordo com os especialistas, o aquecimento global e a utilização de luminosidade artificial contribuíram para a adaptação da espécie. 

Não é mais aquele mosquito que pica só durante o dia. Ele se adaptou às diferenças climáticas e agora circula também em outros horários”, explica Sérgio Luz.

O fator das mudanças climáticas também contribui para a presença do mosquito em ambientes com clima que anteriormente eram considerados inóspitos à espécie. Isso porque, locais em que possuíam clima desfavorável à transmissão do mosquito ficaram mais quentes e passaram a ser favoráveis à presença do agente transmissor da dengue.

Com as alterações no clima e o aumento do período de dias mais quentes, há a presença do mosquito em áreas que antes não tinham condições ecológicas adequadas para o estabelecimento da espécie“, explica Maria Anice.

O agente transmissor da dengue também adquiriu capacidade de se reproduzir em água contaminada, o que não acontecia anteriormente, visto que a fêmea do Aedes aegypti somente colocava ovos em água limpa. Com a adaptação, já são identificados criadouros instalados em água contaminada por matéria orgânica e também em água salobra. 

Minas Gerais é o estado com maior de casos da doença

Até o fechamento desta reportagem, Minas Gerais é o estado que possui mais casos de dengue no país. Segundo o levantamento do Ministério da Saúde, são 179.334 casos confirmados da doença, 127 óbitos e 354 mortes em investigação.

No entanto, a disparidade entre os números apresentados pelo governo federal e pela Secretaria de Saúde de Minas Gerais revelam uma situação problemática. De acordo com os dados apresentados pelo governo estadual, são 152.440 casos confirmados, 49 óbitos e 270 mortes em investigação. Em comparação, a discrepância entre os números apresentados é de 26.894 em casos confirmados, 78 óbitos, além de 84 mortes em investigação.

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