Lula veta PL da dosimetria e mantém punições a Bolsonaro e envolvidos no 8 de janeiro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou integralmente, nesta quinta-feira (8), o Projeto de Lei nº 2.162/2023, conhecido como PL da Dosimetria, que reduziria as penas do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. A assinatura do veto ocorreu em cerimônia no Palácio do Planalto, durante evento que marcou os três anos das invasões às sedes dos Três Poderes em Brasília.

A decisão mantém intactas as punições aplicadas aos réus do núcleo central da suposta tentativa de golpe, incluindo ex-ministros e militares condenados, e reforça o compromisso do governo com a responsabilização de crimes contra o Estado Democrático de Direito. O veto agora retorna ao Congresso, que poderá decidir por mantê-lo ou derrubá-lo.

Veto reforça punição e mantém condenações

Lula justificou o veto afirmando que a redução das penas poderia enfraquecer a responsabilização de envolvidos nos ataques aos Três Poderes. “Crimes contra a democracia devem ser punidos de forma rigorosa e sem exceção”, declarou durante a cerimônia, diante de autoridades e convidados.

Entre os condenados, além de Bolsonaro, estão Walter Braga Netto, Anderson Torres, Almir Garnier, Paulo Sérgio Nogueira, Augusto Heleno e Mauro Cid. Alexandre Ramagem, que se encontra nos Estados Unidos, é considerado foragido pela Justiça brasileira. A decisão presidencial não altera suas punições, mantendo o cumprimento integral da pena e impedindo qualquer benefício de progressão de regime enquanto ele não se apresentar às autoridades.


Lula veta PL da Dosimetria (Vídeo: reprodução/YouTube/Metrópoles)


Vale lembrar que Lula já recebeu anistia por atos cometidos durante a Ditadura Militar. Na época, ele era líder sindical e foi preso por organizar greves no ABC paulista. Embora tenha sido perdoado como perseguido político, essa experiência não interfere nos processos atuais nem na decisão de vetar o PL da Dosimetria.

Congresso pode derrubar veto

Apesar do veto presidencial, deputados e senadores ainda podem analisar a proposta em sessão conjunta. Para que o veto seja derrubado, são necessários 257 votos na Câmara e 41 no Senado. Caso isso ocorra, a lei entraria em vigor, mas ainda poderia ser questionada no Supremo Tribunal Federal.


Motta e Alcolumbre avaliam ter apoio para derrubar veto de Lula ao PL da Dosimetria (Vídeo: reprodução/YouTube/InfoMoneyNews)


A proposta aprovada no Congresso previa reduzir penas e antecipar progressão de regime para condenados pelos atos de 8 de janeiro, inclusive o ex-presidente Bolsonaro, que cumpre pena de mais de 27 anos na Superintendência da PF, em Brasília. A legislação atual, no entanto, exige cumprimento mínimo de 25% da pena antes de pleitear progressão; a lei em análise reduziria esse tempo para 16% em alguns casos.

O veto de Lula marca o terceiro aniversário dos atos e reforça a mensagem de que crimes contra a democracia não terão retrocesso. A decisão agora segue para análise do Congresso, mantendo o debate político aceso sobre o futuro das penas. De um total de 1.399 condenados, 179 permanecem em regime fechado em 8 de janeiro de 2026, incluindo pelo menos 20 idosos. Dados do STF mostram que cerca de 9% têm mais de 60 anos e muitos foram condenados a penas superiores a 10 anos, como Iracina Gosh, 72 anos, com 14 anos de prisão, e Vildet Guardia, 74 anos, com 11 anos, que tiveram suas prisões domiciliares revogadas.

Senador relator, Alessandro Vieira, vota pela rejeição do projeto da Dosimetria

 Nesta terça-feira (16), o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator do Projeto da Dosimetria no Senado, apresentou seu parecer técnico sobre a proposta. Vieira votou pela rejeição do projeto que trata da dosimetria das penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.  

A reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) acontecerá na quarta-feira (17). Na reunião, os senadores titulares votarão oficialmente sobre o futuro do Projeto da Dosimetria (PL). Até o momento, o relator, senador Alessandro Vieira, e o presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), já declararam ser contrários ao Projeto de Lei.  

 Voto do relator e Senador Alessandro Vieira 

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) designou como relator, no caso do PL da Dosimetria, o Alessandro Vieira. O relator estudou e analisou o projeto e, após isso, apresentou um parecer contrário, por entender que a proposta é inconstitucional e o melhor caminho é o arquivamento do projeto.

O relator somente apresentou o seu parecer, ou seja, um voto técnico, que pode ou não ser seguido pelos demais senadores da comissão.

Para que Alessandro Vieira possa votar oficialmente, é necessário que o titular Eduardo Braga (MDB-AM) não esteja presente na reunião, permitindo que o suplente assuma e participe da votação, inclusive podendo reafirmar seu voto contrário ao projeto.


Senador Alessandro Vieira falando sobre o PL da Dosimetria (Vídeo: reprodução/ YouTube/globonews)


O senador Alessandro Vieira deixou claro em entrevista ao G1 que o projeto enfraquece o combate ao crime e abre precedente para outros criminosos tentarem reduzir suas penas.

Além disso, Vieira afirmou que:

“O Senado Federal não pode incorrer na incoerência de endurecer o discurso contra o crime organizado com uma mão, prometendo rigor à sociedade, e, com a outra, aprovar uma legislação que abre as portas das prisões sem qualquer razoabilidade.” 

Além disso, Alessandro também é o relator do Projeto Antifacção.

Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) é o principal órgão do Senado Federal, atuando como um filtro jurídico e constitucional para as propostas em discussão no Parlamento. Todo projeto de lei (PL) importante passa pela comissão.

Os senadores titulares com poder de voto estão divididos em blocos parlamentares:  o Bloco com a maioria do senado é o Parlamentar Democracia (MDB, PSDB, PODEMOS, UNIÃO) tem nove votantes.

Já o Bloco Parlamentar da Resistência Democrática (PSB, PSD) possui outros cinco senadores que podem votar. O Bloco Parlamentar Vanguarda (PL, NOVO) também tem outros cinco senadores titulares. O Bloco Parlamentar Pelo Brasil (PDT, PT) possui quatro senadores votantes.

E o Bloco Parlamentar Aliança (PP, REPUBLICANOS), que tem menos senadores votantes, tem três. Ou seja, ao todo são vinte e seis votantes. 


Presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) Otto Alencar (Vídeo: reprodução/Instagram/@ottoalencar)


O rito a ser seguido começa com a designação de um relator pela CCJ. No caso do PL da Dosimetria, como já citado, o relator é o Alessandro Vieira. O relator apresenta um parecer — que pode ser favorável, contrário ou apresentar emendas — e, como mencionado anteriormente, Alessandro Vieira deu um voto técnico contrário ao projeto.

Após essa etapa, os senadores titulares discutem e votam o parecer. A reunião está marcada para o dia 17 de dezembro, quarta-feira. Se o parecer for aprovado, o projeto segue para o Plenário ou para outras comissões. No caso de rejeição na CCJ, especialmente por motivos de inconstitucionalidade, o projeto pode ser arquivado.