Apostas online retiraram R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025
Estudo do Comsefaz aponta perda líquida bilionária com Bets enquanto associação do setor rebate metodologia e contesta os dados divulgados
As apostas esportivas online, chamadas de Bets, retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, segundo um novo estudo. A princípio, o levantamento aponta que as chamadas bets ampliaram a pressão financeira sobre os consumidores em um cenário de juros elevados e endividamento crescente.
O estudo foi elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef). A pesquisa utilizou dados do Banco Central, das Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica (Epae) e análises próprias para estimar a saída líquida de recursos destinada às plataformas.
Saída líquida preocupa pesquisadores
Os pesquisadores definem saída líquida como a diferença entre o dinheiro apostado e os valores devolvidos em prêmios. Logo, o cálculo representa quanto permaneceu efetivamente nas empresas de apostas após os pagamentos aos jogadores. Ainda segundo o relatório, essa perda alcançou R$ 62,5 bilhões apenas em 2025 e o valor corresponde a aproximadamente 0,68% da renda disponível das famílias brasileiras.
Além disso, entre outubro de 2024 e março de 2026, a perda média mensal foi estimada em R$ 4,7 bilhões. Para os autores, esse movimento reduz recursos destinados ao consumo e dificulta o pagamento de despesas essenciais. O estudo afirma que as apostas passaram a representar um fator adicional de vulnerabilidade financeira e pesquisadores apontam que o crescimento do setor ocorreu paralelamente ao aumento do endividamento das famílias.
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Governo Federal faz alerta sobre apostas online (Vídeo: reprodução/Instagram/@govbr)
Em junho, por exemplo, 81,6% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, conforme dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Os autores avaliam que esse cenário ajuda a explicar o ritmo moderado do consumo, apesar do mercado de trabalho aquecido.
Pix impulsionou crescimento das apostas
O levantamento também identifica o Pix como principal meio utilizado para abastecer contas em plataformas de apostas. Segundo os pesquisadores, as transferências cresceram rapidamente após a regulamentação do setor. Antes das novas regras, as movimentações mensais para empresas classificadas nos segmentos de artes, cultura, esporte e recreação giravam em torno de R$ 5 bilhões. Posteriormente, esse volume ultrapassou R$ 25 bilhões e chegou próximo de R$ 42 bilhões.
Ainda conforme o estudo, as bets adicionaram, em média, R$ 24,1 bilhões mensais às transações via Pix entre outubro de 2024 e março de 2026. No acumulado de 2025, esse valor extra alcançou R$ 350,97 bilhões. Os pesquisadores também destacam que famílias de menor renda participaram significativamente desse mercado.
Jogadores falam sobre o vício em bets (Vídeo: reprodução/YouTube/@estadao)
Como exemplo, citam a decisão do governo federal de impedir que beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada utilizassem recursos dos programas em plataformas de apostas. Após essa restrição, o crescimento das transferências destinadas às bets desacelerou. Para os autores, esse comportamento reforça a hipótese de participação relevante dos beneficiários de programas sociais.
Associação do setor contesta resultados
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) rejeitou as conclusões do levantamento e classificou os dados como incorretos e afirmou que o estudo apresenta erros metodológicos e ignora fatores macroeconômicos. Ainda segundo a associação, a receita bruta oficial das apostas online somou R$ 37 bilhões em 2025. Portanto, o valor divulgado pelo Comsefaz estaria acima da realidade do setor.
A ANJL também argumenta que as transferências analisadas abrangem outros segmentos econômicos, além das casas de apostas. A entidade ainda atribui parte do crescimento ao avanço da bancarização e ao uso cada vez maior do Pix. Por fim, a associação destacou que milhares de sites ilegais foram bloqueados e centenas de contas bancárias encerradas durante o período analisado. Assim, defendeu que apenas os dados oficiais do órgão regulador representam fielmente o mercado legal de apostas.
